“Nós”, de Anne Sexton, trad. Bruno M. Silva

 Eu estava embrulhada em pêlo
negro e pêlo branco e
tu despiste-me e
puseste-me diante da luz dourada
e coroaste-me,
enquanto fora da porta,
como dardos inclinados, caía a neve.
Enquanto vinte e cinco centímetros de neve
caíam como estrelas
em minúsculos fragmentos de cálcio,
nós entravamos nos nossos próprios corpos
(aquele quarto que nos há-de enterrar)
e tu entravas no meu corpo
(aquele quarto que nos há-de sobreviver)
e primeiro esfreguei os teus
pés molhados com uma toalha
porque eu era tua serva
e então chamaste-me princesa.
Princesa!

Oh e então
ergui-me na minha pele dourada
e abandonei os salmos
e abandonei a roupa
e tu soltaste os freios
e tu soltaste as rédeas
e eu abri os botões,
os ossos, as confusões,
os postais de Nova Inglaterra,
as dez da noite de Janeiro,
e erguemo-nos como trigo,
acres e acres de ouro,
e nós ceifamos,
nós ceifamos.

(Anne Sexton, Love Poems 1969)

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