“O Sol”, de Anne Sexton, trad. Bruno M. Silva

 Ouvi falar de peixes
que vieram à superfície pelo sol
e aí ficaram para sempre,
ombro a ombro,
fileiras de peixes que não regressaram mais,
sugados
de todas as suas manchas altivas e solidões.

Penso em moscas
que vêm de suas cavernas impuras
para a arena.
Primeiro transparentes.
Depois azuis com asas de cobre.
Elas fulguram nas frontes dos homens.
Nem aves nem acrobatas,
irão secar como pequenos sapatos negros.

Eu sou um ser idêntico.
Adoecida pelo frio e o cheiro da casa,
Dispo-me sob a lupa abrasadora.
A minha pele alonga-se como água do mar.
Oh olho amarelo,
deixa-me adoecer com o teu calor,
deixa-me febril e enrugada.
Agora estou absolutamente entregue.
Sou a tua filha, o teu doce,
o teu sacerdote, a tua boca e a tua ave
e falarei a todos de ti,
até que me sepultem para sempre,
uma ténue bandeira cinza.

Maio 1962

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