“quando a primeira mulher fez magia com as suas mãos”, de rupi kaur, trad. Ana de Noronha

   quando a primeira mulher abriu as pernas
para deixar o primeiro homem entrar
o que viu ele
enquanto ela o conduzia através do corredor
até ao quarto sagrado
algo jazia expectante
algo que o estremeceu
tanto que a confiança se estilhaçou
de aí em diante
o primeiro homem
observou a mulher
noite e dia
para ela construiu uma cela
para que não pecasse mais
pegou fogo aos seus livros
chamou-a bruxa
e gritou puta
até que a noite chegou
e os olhos cansados o atraiçoaram
a primeira mulher notou que
enquanto sucumbia ao sono
o murmúrio
o batuque
um bater no meio das pernas
campainha
voz
pulsação
pedindo-lhe que abrisse
assim deixou-se ir a sua mão
através do corredor
até ao quarto sagrado
ela viu
deus
a varinha mágica
a língua da serpente
que dentro dela jazia sorrindo
 
- quando a primeira mulher fez magia com as suas mãos

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