“passagem a limpo”, de Mário Cesariny

O navio morto
que sobe a corrente
de que velho porto
era o adolescente?

Cingiam-lhe a boca
água e nevoeiro?
Tinha muita, pouca
falta de dinheiro?

Bom barco, subido
aos da mor igualha,
tens o ombro ferido
até à fornalha

E puxado a cabos
— este rei de oceanos! —
por ginasticados
loiros namorados
a diesel e canos

Foi-lhe a estrela má.
— E se recomeça?
— Vamos daqui já
enterrá-lo depressa.

Vai morto. Não sonha.
Não grita. Não soa.
Saiu-lhe a peçonha
pelo buraco da proa


[in Uma Grande Razão os poemas maiores, 2007, Assírio & Alvim]

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