“Coisas”, de Lisel Mueller (1924-2020), trad. Bruno M. Silva

O que aconteceu foi que nos tornámos solitários
vivendo entre as coisas,
então demos um rosto aos relógios,
costas às cadeiras,
à mesa quatro pernas robustas
para que nunca se fatigasse.

Calçámos os sapatos com línguas
macias como as nossas
e pendurámos badalos dentro dos sinos
para que pudéssemos ouvir
a sua linguagem emotiva,

e como amávamos perfis graciosos
a jarra recebeu um lábio,
a garrafa um longo, ténue pescoço.

Mesmo o que estava para além de nós
acabámos por forjar à nossa imagem;
demos um coração ao país,
um olho à tempestade,
uma boca à caverna
para que pudéssemos passar em segurança.

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