“Neve”, de Vladimír Holan [1905-1980] trad. Bruno M. Silva

Começou a nevar à meia-noite. E claro
que a cozinha é o melhor lugar para te sentares,
mesmo a cozinha dos que não dormem.
É quente, cozinhas qualquer coisa, bebes vinho
e olhas pela janela a tua amiga eternidade.
Que importa que o nascimento e a morte sejam meros pontos
quando a vida em si não é uma linha recta?
Por que te atormentas olhando o calendário
e te questionas sobre o que está em jogo.
Para quê confessar que não tens dinheiro
para sapatos de marca?
E para quê gabares-te
que sofres mais do que os outros.

Se não houvesse aqui silêncio
a neve tê-lo-ia sonhado.
Estás sozinho.
Poupa os teus gestos. Não tens nada para mostrar.

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