“O intruso”, de Delmira Agustini (1886-1914) trad. Bruno M. Silva

Amor, a noite estava trágica e arfante
Quando a tua chave de ouro cantou na minha fechadura;
Depois, na porta aberta sobre a sombra gelada,
A tua figura foi uma mancha de luz e brancura.

Aqui tudo foi iluminado pelos teus olhos de diamante;
Os teus lábios de frescura beberam do meu cálice,
E a tua cabeça perfumada descansou na minha almofada;
O teu despudor encantou-me e adorei a tua loucura.

E hoje rio-me se te ris, e canto se tu cantas;
E se tu dormes eu durmo como um cão a teus pés!
E ainda hoje carrego na minha sombra o teu odor primaveril;
E tremo se a tua mão toca a fechadura,
E bendigo a noite arfante e obscura
Que fez crescer na minha vida a tua boca de frescura!


de El libro blanco (Frágil) 1907 
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