“Eu olho para o mundo”, de Langston Hughes (1902-1967), trad. Bruno M. Silva

Eu olho o mundo
Pelos olhos que despertam num rosto negro – 
E é isto que eu vejo:
Este lugar estreito e vedado
Que me destinaram.

Olho depois os muros absurdos
Pelos olhos negros num rosto negro – 
E é isto que eu sei:
Que estes muros que a opressão constrói
Terão que ir!

Olho para o meu próprio corpo
Com olhos já não cegos – 
E vejo que as minhas mãos podem construir
O mundo que existe na minha cabeça.
Apressemo-nos então a encontrar, camaradas,
O caminho por achar.

“entrando no sul”, de Lucille Clifton (1936-2010), trad. Bruno M. Silva

vesti o casaco de minha mãe.
é quente e familiar
como velho pêlo
e posso ouvir vozes sussurrantes
através dele.    demasiados
animais morreram
para que fosse feito.   as mangas
desenrolam-se em direcção às mãos
como cordas.  eu vou usá-lo
porque ela o amou
mas o sangue de que foi criado acumula-se
sobre os meus ombros
pesado escuro e vivo 

“a morte de thelma sayles”, de Lucille Clifton (1936-2010), tradução de Bruno M. Silva

não deixo vestígios para que os meus amores vivos
não me possam seguir. junto ao rio
a maioria volta para trás, as suas almas tremem,
mas a minha menina fica sozinha na margem
e olha. arranco o meu coração do bolso
e atiro-o. sorrio ao vê-la apanhar tudo
o que alguma vez irá apanhar e voltar para casa
e para os seus filhos. a maternidade
tornou-o forte, sussurro ao seu ouvido
por entre as folhas. 

“confissão”, de Lucille Clifton (1936-2010), tradução de Bruno M. Silva

 pai 
 não sou semelhante à fé necessária.
 eu duvido.
 tenho as certezas de uma mulher;
 corpos são-me arrancados,
 empurrados para dentro de mim.
 osso e carne é o que conheço.
  
 pai
 os anjos dizem que não têm asas.
 acordei uma manhã
 sentindo como os poderia ver.
 podia distinguir as suas sombras
 na sombra. eu não sou
 semelhante à fé necessária.
  
 pai 
 vejo a tua mãe hirta
 sem ombros sem sapatos a teu lado.
 ouço-a sussurrar-te verdades que eu não posso conhecer.
 pai eu duvido.
  
 pai 
 quais são as verdadeiras certezas?
 a tua mãe fala de amor.
  
 os anjos dizem que não têm asas.
 não sou semelhante à fé necessária.
 procuro fugir de tão surpreendente presença;
 os anjos correm diante de mim
 como uma tocha. 

“Cisnes Selvagens”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950), trad. Bruno M. Silva

Olhei o meu coração enquanto os cisnes selvagens sobrevoavam.
E o que vi que ainda não vira antes?
Apenas uma questão a menos ou a mais;
Nada que coincidisse com o voo de aves selvagens.
Coração fatigado, vivendo e morrendo sempre,
Casa sem ar, eu abandono-te e tranco a tua porta.
Cisnes selvagens, atravessem a cidade, atravessem
A cidade de novo, arrastando as pernas e bramindo. 

“Lamento”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950), trad. Bruno M. Silva

Ouçam, filhos: 
O vosso pai está morto.
Dos seus velhos casacos
Farei casaquinhos para vocês;
Farei das suas velhas calças
Calças mais pequenas.
Nos seus bolsos estarão
Coisas que costumava guardar,
Chaves e moedas
Cobertas de tabaco;
O Dan ficará com as moedas
Para guardar no banco;
A Anne ficará com as chaves
Para fazer um belo som com elas.
A vida deve continuar,
E os mortos serem esquecidos;
A vida deve continuar,
Embora bons homens morram;
Anne, come o teu pequeno-almoço;
Dan, toma o remédio;
A vida deve continuar;
Às vezes esqueço porquê. 

“poema para o meu útero”, de Lucille Clifton (1936-2010), trad. Bruno M. Silva

tu         útero
tu foste paciente
como uma meia
enquanto eu guardei em ti
os meus filhos vivos e mortos
e agora
eles querem-te arrancar
como meias inúteis
para onde eu vou
para onde é que eu vou
velha menina
sem ti
útero
minha pegada ensanguentada
minha cozinha de estrogénio
meu saco negro de desejo
para onde posso eu ir
descalça
sem ti
para onde podes tu ir
sem mim
 
 
(a partir da edição The Collected Poems of Lucille Clifton 1965-2010, Boa Editions Ltd)