“Assistindo a uma despedida”, de Wang Wei (699-761), trad. Bruno M. Silva

Verde verde o caminho dos salgueiros
O caminho por onde se separam
Um filho amado para distantes províncias
E velhos pais deixados em casa
  
Ele deve partir ou eles não sobreviverão
Mas a partida reacende a dor
Uma gentil investida ao irmão
Uma breve palavra aos vizinhos
Uma última bebida aos portões
E por fim despede-se dos amigos
  
Secas as lágrimas, deve juntar-se aos companheiros
Engolindo o sofrimento, arranca na carruagem
E por fim desaparece ao longe
Levantando por vezes o pó da estrada
  
Eu também, há muito, disse adeus à minha família
E quando vejo isto, o meu lenço molha-se de lágrimas. 


(a partir da versão inglesa de G. W. Robinson e Arthur Cooper, in Three Tang Dinasty Poets, Penguin Classics)

“O Idiota”, de Jacques Prévert (1900-1977), trad. Bruno M. Silva

 Ele diz que não com a cabeça
 mas diz sim com o coração
 ele diz sim ao que ama
 ele diz não ao professor
 ele levanta-se
 é questionado
 e todos os problemas são apresentados
 um riso súbito prende-o
 e ele apaga tudo
 as palavras as figuras
 os nomes as datas
 as frases e as ciladas
 e apesar das ameaças do professor
 sob o escárnio de prodigiosas crianças
 com giz de todas as cores
 no quadro negro da desgraça
 ele desenha o rosto da felicidade. 

“Uma pena. Nós éramos uma invenção tão boa”, de Yehuda Amichai (1924-2000), trad. Bruno M. Silva

Eles amputaram
As tuas coxas das minhas ancas.
A meu ver
São todos cirurgiões. Todos eles.
 
Eles desmantelaram-nos
Um do outro.
A meu ver
São todos engenheiros. Todos eles.
 
Uma pena. Nós éramos uma invenção
Tão boa e terna.
Um avião feito de homem e mulher.
Asas e tudo.
Pairávamos um pouco sobre a terra.
 
Nós até voávamos um pouco.