Três poemas de Tu Fu (712–770), tradução de Bruno M. Silva

Tempestade de Neve

Tumulto, choro, novos fantasmas.
Desolado, envelhecido, sozinho eu canto
Para mim mesmo. Farrapos de nevoeiro caem
No entardecer. A neve avança
Por entre o vento. O copo de vinho
Entornou-se. A garrafa está vazia.
O lume apagou-se no fogão.
Por todo o lado os homens sussurram,
Enquanto eu cismo na inutilidade das palavras.

*

Adeus ao meu amigo Yen

Aqui nos despedimos.
Tu partes à distância,
E de novo as montanhas cobertas de árvores
Ficam vazias, inimigas.
Que dia nos verá
De novo bêbedos e juntos?
Na noite passada caminhámos
De braço dado sob a lua,
Cantando canções tristes
Ao longo da margem do rio.
A tua honra supera a de três imperadores.
E agora regresso à minha casa solitária junto ao rio,
Mudo, sozinho, dando de comer aos meus últimos anos.

*

para Pi Ssu Yao

Temos talento. As pessoas dizem que somos
Os poetas mais importantes do nosso tempo.
Que pena! as nossas casas são humildes,
O reconhecimento que nos prestam é vulgar.
Famintos, mal vestidos, mal tratados
Pelos serventes. No auge da nossa
Juventude, temos o rosto já gasto.
Quem quer saber de nós,
Ou dos nossos problemas? Somos a nossa
Própria audiência. Apreciamos
Os méritos literários
Uns dos outros. Os nossos poemas passarão
Junto com os poemas dos grandes poetas mortos.
Podemo-nos consolar uns aos outros.
Pelo menos teremos descendentes.

“Tenho em mim como uma bruma”, Fernando Pessoa (1888-1935)

Tenho em mim como uma bruma
Que nada é nem contém
A saudade de coisa nenhuma,
O desejo de qualquer bem.

Sou envolvido por ela
Como por um nevoeiro
E vejo luzir a última estrela
Por cima da ponta do meu cinzeiro.

Fumei a vida. Que incerto
Tudo quanto vi ou li!
E todo o mundo é um grande livro aberto
Que em ignorada língua me sorri.

(Fernando Pessoa, in Poesia do Eu, ed. Assírio & Alvim)