Tempestade de Neve
Tumulto, choro, novos fantasmas.
Desolado, envelhecido, sozinho eu canto
Para mim mesmo. Farrapos de nevoeiro caem
No entardecer. A neve avança
Por entre o vento. O copo de vinho
Entornou-se. A garrafa está vazia.
O lume apagou-se no fogão.
Por todo o lado os homens sussurram,
Enquanto eu cismo na inutilidade das palavras.
*
Adeus ao meu amigo Yen
Aqui nos despedimos.
Tu partes à distância,
E de novo as montanhas cobertas de árvores
Ficam vazias, inimigas.
Que dia nos verá
De novo bêbedos e juntos?
Na noite passada caminhámos
De braço dado sob a lua,
Cantando canções tristes
Ao longo da margem do rio.
A tua honra supera a de três imperadores.
E agora regresso à minha casa solitária junto ao rio,
Mudo, sozinho, dando de comer aos meus últimos anos.
*
para Pi Ssu Yao
Temos talento. As pessoas dizem que somos
Os poetas mais importantes do nosso tempo.
Que pena! as nossas casas são humildes,
O reconhecimento que nos prestam é vulgar.
Famintos, mal vestidos, mal tratados
Pelos serventes. No auge da nossa
Juventude, temos o rosto já gasto.
Quem quer saber de nós,
Ou dos nossos problemas? Somos a nossa
Própria audiência. Apreciamos
Os méritos literários
Uns dos outros. Os nossos poemas passarão
Junto com os poemas dos grandes poetas mortos.
Podemo-nos consolar uns aos outros.
Pelo menos teremos descendentes.
Mês: Agosto 2024
“Tenho em mim como uma bruma”, Fernando Pessoa (1888-1935)
Tenho em mim como uma bruma
Que nada é nem contém
A saudade de coisa nenhuma,
O desejo de qualquer bem.
Sou envolvido por ela
Como por um nevoeiro
E vejo luzir a última estrela
Por cima da ponta do meu cinzeiro.
Fumei a vida. Que incerto
Tudo quanto vi ou li!
E todo o mundo é um grande livro aberto
Que em ignorada língua me sorri.
(Fernando Pessoa, in Poesia do Eu, ed. Assírio & Alvim)


