Antero de Quental, “Transcendentalismo”

a J. P. Oliveira Martins 

Já sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Caí na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrário do templo da Ilusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma matéria bruta...

Não é no vasto mundo — por imenso
Que ele pareça à nossa mocidade —
Que a alma sacia o seu desejo intenso...

Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, vácuo, soledade,
Voa e paira o espírito impassível!


(in Sonetos, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses)

“Calma”, de Giuseppe Ungaretti (1888-1970), trad. Bruno M. Silva

As uvas estão maduras, o campo lavrado,

A colina desprende-se das nuvens.

Nos espelhos empoeirados do verão
A sombra caiu,

Entre dedos incertos
O seu brilho é evidente,
E distante.

Com as andorinhas voa
A última angústia.


(a partir da versão inglesa de Patrick Creagh, Selected Poems, Penguin)

“Bem dentro de nós”, de Vasko Popa (1922 – 1991), trad. Bruno M. Silva

I

Erguemos as mãos
A rua sobe até ao céu
Baixamos os olhos
Os telhados pendem para o a terra

De cada dor
Que não mencionamos
Um castanheiro cresce
E misterioso permanece por trás de nós

De cada esperança
Que nutrimos
Uma estrela levanta-se
E move-se inatingível à nossa frente

Ouves o tiro
Que voa entre as nossas cabeças
Ouves o tiro
Que guarda o nosso beijo


(a partir da versão inglesa de Anne Pennington, Selected Poems, Penguin)

“Silêncio”, de Giuseppe Ungaretti (1888-1970), trad. Bruno M. Silva

Mariano, 27 de Junho 1916

Conheço uma cidade
que todos os dias se enche de luz
e nesse instante tudo se encanta

Eu parti certa noite

No meu coração o estremecer das cigarras
continuou

Da branca
embarcação
eu vi
a minha cidade desaparecer
e deixar
um enlace de luzes
por um momento
no ar turvo
suspensas


(a partir da versão inglesa de Patrick Creagh, Selected Poems, Penguin)

“Uma cabeça desabrigada”, de Vasko Popa (1922 – 1991), trad. Bruno M. Silva

Uma cabeça decepada
Uma cabeça com uma flor entre os dentes
Errante circunda a terra

O sol encontra-a
Faz-lhe uma vénia
E segue o seu caminho

A lua encontra-a
A ela sorri
E não pára de seguir o seu caminho

Por que rosna ela à terra
Não poderia voltar 
Ou partir para sempre

Os seus floridos lábios saberão


(a partir da versão inglesa de Anne Pennington, Selected Poems, Penguin)

Dois poemas de Stephen Crane (1871-1900). Tradução de Bruno M. Silva

No deserto
 
No deserto
Vi uma criatura, despida, bestial,
Que, agachada sobre o solo,
Segurava nas mãos o seu coração
E dele comia.
Eu disse: “É bom, amigo?”
“É amargo — amargo,” ele respondeu;

“Mas eu gosto
Porque é amargo,
E porque é o meu coração.”


*

Eu vi um homem perseguindo o horizonte
 
Eu vi um homem perseguindo o horizonte;
Às voltas corriam e corriam.
Isto perturbou-me;
Eu aproximei-me do homem.
“É fútil,” disse-lhe,
“Nunca poderás —"
 
“Mentes,” gritou ele,
E continuou a correr.

“passagem a limpo”, de Mário Cesariny

O navio morto
que sobe a corrente
de que velho porto
era o adolescente?

Cingiam-lhe a boca
água e nevoeiro?
Tinha muita, pouca
falta de dinheiro?

Bom barco, subido
aos da mor igualha,
tens o ombro ferido
até à fornalha

E puxado a cabos
— este rei de oceanos! —
por ginasticados
loiros namorados
a diesel e canos

Foi-lhe a estrela má.
— E se recomeça?
— Vamos daqui já
enterrá-lo depressa.

Vai morto. Não sonha.
Não grita. Não soa.
Saiu-lhe a peçonha
pelo buraco da proa


[in Uma Grande Razão os poemas maiores, 2007, Assírio & Alvim]

Quatro poemas de Kyōgoku Tamekane (1254-1332). Tradução de Bruno M. Silva a partir da versão inglesa de Steven D. Carter

 Fascinado pela lua
ele passa pela estalagem
onde deveria dormir essa noite.
O viajante nocturno
atravessa já o caminho de amanhã.
 
*
 
Às voltas o tempo torna
e então talvez de novo
eu encontre a primavera.
Mas este dia, esta noite –
isto nunca voltará.
 
*
 
No meu coração deposito
a cor das ervas e das árvores
que agora contemplo –
para que pelo menos aí
a sua imagem fique comigo.
 
*
 
A tristeza das coisas
é algo sem cor –
como quando ao anoitecer
o outono chega pairando
nas plumas dos miscanthus.