Primeiros 94 versos do poema “Endymion”, de John Keats (1795-1821), trad. Bruno M. Silva

Um Ser de beleza é uma alegria eterna:
O seu encanto cresce; jamais se perderá
No nada; será para nós como um lugar
De sossego, um sono cheio de sonhos
Brandos, saúde, uma respiração calma.
Então, a cada manhã, teçamos
Uma coroa de flores que nos una à terra,
Apesar do desalento, da desumana perda
Dos mais nobres espíritos, dos dias soturnos,
De todos os caminhos venturosos e sombrios
Apartados para a nossa procura: sim, apesar de tudo,
Há uma forma de beleza que afasta o sudário
Das nossas almas enegrecidas. Assim são o sol e a lua,
As árvores antigas e as recentes, que despontam
Uma dádiva de sombra sobre o rebanho; os narcisos,
Com o mundo verde em que habitam; e os rios luminosos,
Que para si criam um refúgio de frescura
Contra as estações quentes; as sarças
Enriquecidas com as rosas em flor:
E, também, o esplendor do destino
Que imaginámos para os grandiosos mortos;
Todas as histórias admiráveis que escutámos ou lemos:
Uma fonte inesgotável de uma bebida imortal,
Caindo sobre nós do limiar do céu.

E não sentimos a sua beleza apenas
Durante uma curta hora; não, pois como as árvores
Que murmuram em torno de um templo acabam por se tornar
Tão adoradas como o próprio edifício, também a lua,
A paixão pela poesia, glórias infinitas,
Nos assombram até se tornarem numa luz encantadora
Em nossas almas, e tão depressa nos prendem
Que, quer haja luz ou os céus se fechem sobre nós,
Elas devam estar eternamente connosco, ou então morreremos.

Portanto, é com alegria que eu
Vou contar a história de Endymion.
A própria música do seu nome atravessa
O meu ser, e cada agradável cena
Cresce fresca diante de mim como os nossos
Ricos vales: começarei agora,
Enquanto não escuto o bulício da cidade,
Agora, enquanto os botões são ainda recentes
E se estendem por labirintos da mais jovem cor
Em florestas ancestrais; enquanto o salgueiro exibe
O seu delicado âmbar; e a casa nos chegam
Os baldes transbordantes de leite. E, enquanto a estação
Fizer crescer em abundância as suas hastes, eu irei conduzir
Suavemente o meu pequeno barco, por horas serenas,
Atravessando riachos que se abrem em frescos refúgios.
Muitos versos conto aqui escrever
Antes que as margaridas, orladas a vermelho e branco,
Se ocultem entre as ervas altas; e antes que as abelhas
Zumbam em torno dos trevos e das ervilhas-de-cheiro,
Deve então a minha história ir a meio do seu relato.
Ah, que não chegue a estação invernal, despida e grisalha,
E encontre a minha história a meio: mas antes que o soberbo outono,
Com seus eternos laivos de ouro temperado,
Me cinja quando eu chegar ao fim.
E agora, de uma vez por todas, audaz, conduzo
O meu pensamento como um arauto para o vasto ermo,
Aí, que ele toque o seu clarim, e rapidamente cubra
De verde o meu caminho incerto, para que eu possa
Avançar facilmente, entre a profusão de flores e ervas.

Pelos flancos de Latmos estendia-se
Uma poderosa floresta; a humidade da terra
Alimentava com abundância as raízes ocultas,
Convertendo-as em ramos pesados e preciosos frutos.
Escuras sombras profundamente ocultas,
Aonde nenhum homem chegava; e se do olhar vigilante
Do pastor um cordeiro se afastasse por esses íntimos vales,
Jamais voltaria a ver os belos redis
Para onde os seus companheiros, balindo de felicidade,
Por cima das montanhas, a cada entardecer, acudiam.
Entre os pastores sempre se acreditou que
Nenhum dos tenros cordeiros que se tivesse extraviado
Do branco rebanho poderia salvar-se dos
Lobos, ou da cabeça vigilante dos leopardos,
Até que chegasse às virgens planícies
Onde pastavam os rebanhos de Pan: ah, grande era o ganho
De quem assim perdesse um cordeiro. Ali havia muitos caminhos
Que sinuosamente se cruzavam por entre altos fetos, pântanos juncados,
Terraços de heras; todos confluindo agradavelmente
Até um amplo campo de relva, de onde se podia ver apenas
Os troncos amontoando-se por todo o espaço entre a ondulação
Da erva e os ramos inclinados: quem poderia adivinhar
A frescura do espaço do céu acima,
Perfilado pelas copas obscuras das árvores? por onde uma ave
Frequentemente bate as suas asas, e muitas vezes também
Uma pequena nuvem se move através do azul.

No centro de toda esta serenidade
Erguia-se um altar de mármore com um trançado
De flores recém abertas; e o orvalho
Imitara fantasias, derramando na noite anterior
As margaridas sobre o solo sagrado,
Para que recebessem de forma grandiosa a luz do amanhecer.

Três poemas de Tu Fu (712–770), tradução de Bruno M. Silva

Tempestade de Neve

Tumulto, choro, novos fantasmas.
Desolado, envelhecido, sozinho eu canto
Para mim mesmo. Farrapos de nevoeiro caem
No entardecer. A neve avança
Por entre o vento. O copo de vinho
Entornou-se. A garrafa está vazia.
O lume apagou-se no fogão.
Por todo o lado os homens sussurram,
Enquanto eu cismo na inutilidade das palavras.

*

Adeus ao meu amigo Yen

Aqui nos despedimos.
Tu partes à distância,
E de novo as montanhas cobertas de árvores
Ficam vazias, inimigas.
Que dia nos verá
De novo bêbedos e juntos?
Na noite passada caminhámos
De braço dado sob a lua,
Cantando canções tristes
Ao longo da margem do rio.
A tua honra supera a de três imperadores.
E agora regresso à minha casa solitária junto ao rio,
Mudo, sozinho, dando de comer aos meus últimos anos.

*

para Pi Ssu Yao

Temos talento. As pessoas dizem que somos
Os poetas mais importantes do nosso tempo.
Que pena! as nossas casas são humildes,
O reconhecimento que nos prestam é vulgar.
Famintos, mal vestidos, mal tratados
Pelos serventes. No auge da nossa
Juventude, temos o rosto já gasto.
Quem quer saber de nós,
Ou dos nossos problemas? Somos a nossa
Própria audiência. Apreciamos
Os méritos literários
Uns dos outros. Os nossos poemas passarão
Junto com os poemas dos grandes poetas mortos.
Podemo-nos consolar uns aos outros.
Pelo menos teremos descendentes.

“Tenho em mim como uma bruma”, Fernando Pessoa (1888-1935)

Tenho em mim como uma bruma
Que nada é nem contém
A saudade de coisa nenhuma,
O desejo de qualquer bem.

Sou envolvido por ela
Como por um nevoeiro
E vejo luzir a última estrela
Por cima da ponta do meu cinzeiro.

Fumei a vida. Que incerto
Tudo quanto vi ou li!
E todo o mundo é um grande livro aberto
Que em ignorada língua me sorri.

(Fernando Pessoa, in Poesia do Eu, ed. Assírio & Alvim)

[Eclesiastes 3, 1-8]

Para tudo há um momento
e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu:
tempo para nascer e tempo para morrer,
tempo para plantar e tempo para arrancar o plantio,
tempo para matar e tempo para curar,
tempo para destruir e tempo para edificar,
tempo para chorar e tempo para rir,
tempo para se lamentar e tempo para dançar,
tempo para atirar pedras e tempo para as ajuntar,
tempo para abraçar e tempo para evitar o abraço,
tempo para procurar e tempo para perder,
tempo para guardar e tempo para atirar fora,
tempo para rasgar e tempo para coser,
tempo para calar e tempo para falar,
tempo para amar e tempo para odiar,
tempo para guerra e tempo para paz.

“Interrogação”, de Camilo Pessanha [1867-1926]

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

[in Clepsidra, edição Ática]

Soneto 4 de António Nobre

Ó virgens que passais, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido lar.

Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, Graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu Lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai!

[in Só, edição Porto Editora]

“Noite”, de Agostinho Neto [1922-1979]

Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.

Também a noite é escura.

[in Sagrada Esperança, ed. Sá da Costa]

“Último Soneto”, de Mário de Sá-Carneiro [1890-1916]

Que rosas fugitivas foste ali:
Requeriam-te os tapetes - e vieste...
- Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste -
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi...

Pensei que fosse o meu o teu cansaço -
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...

E fugiste... Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava?...

[in Poesias, edições Ática]