“O intruso”, de Delmira Agustini (1886-1914) trad. Bruno M. Silva

Amor, a noite estava trágica e arfante
Quando a tua chave de ouro cantou na minha fechadura;
Depois, na porta aberta sobre a sombra gelada,
A tua figura foi uma mancha de luz e brancura.

Aqui tudo foi iluminado pelos teus olhos de diamante;
Os teus lábios de frescura beberam do meu cálice,
E a tua cabeça perfumada descansou na minha almofada;
O teu despudor encantou-me e adorei a tua loucura.

E hoje rio-me se te ris, e canto se tu cantas;
E se tu dormes eu durmo como um cão a teus pés!
E ainda hoje carrego na minha sombra o teu odor primaveril;
E tremo se a tua mão toca a fechadura,
E bendigo a noite arfante e obscura
Que fez crescer na minha vida a tua boca de frescura!


de El libro blanco (Frágil) 1907 

“Explosão”, de Delmira Agustini (1886-1914) trad. Bruno M. Silva

Se a vida é amor, bendita seja!
Quero mais vida para amar! Hoje sinto
Que mil anos de pensamento não valem
Um belo minuto de sentimento.

O meu coração morria triste e lento…
Hoje abre-se em luz como uma flor tremenda;
A vida brota como um mar violento
Onde a mão do amor me golpeia!

Hoje partiu durante a noite, triste, fria,
De asas quebradas a minha melancolia;
Como uma antiga mancha de dor
Na sombra distante se dissolveu…
Toda a minha vida canta, beija, ri!
Toda a minha vida é uma boca em flor!


[de El libro blanco (Frágil) 1907]

“Amor”, de Delmira Agustini (1886-1914) trad. Bruno M. Silva

Sonhei-o impetuoso, formidável, ardente;
Falando a imprecisa linguagem da torrente;
Um mar transbordando de loucura e fogo,
Atravessando a vida como uma eterna fonte.

Mais tarde, sonhei-o triste, como um grande sol-poente
Que dobrasse contra a noite a sua cabeça flamejante;
Depois ele riu-se, e na sua boca terna como uma oração,
A alma da fonte anunciou os seus cristais.

Hoje sonho que é vibrante, e suave, e alegre, e triste,
Que se veste de toda a escuridão e de toda a íris;
Que, frágil como um ídolo e eterno como Deus,
Levanta sobre toda a vida a sua majestade:
E o seu beijo ardente cai a perfumar o solo
Numa flor em chamas arrancada por dois...

“Versos escritos para Fanny Brawne”, de John Keats (1795-1821) trad. Bruno M. Silva

Esta mão agora viva, quente, capaz
De se estender, poderia, se estivesse fria
E no silêncio selado do túmulo,
Assombrar-te os dias o arrepiar-te os sonhos
De tal forma que desejarias que o teu coração estéril
Fizesse correr de novo nas minhas veias a vida
Até que o teu espírito se acalmasse. Olha para ela, tão perto -
Eu estendo-a para ti.

“Estrela Brilhante”, de John Keats (1795-1821) trad. Bruno M. Silva

Estrela brilhante, fosse eu constante como tu,
Não no teu brilho solitário sustido na noite,
Observando, de pálpebras eternamente abertas,
Como um vigilante Eremita da natureza,
As águas agitando-se em seu sagrado esforço,
Purificando as margens humanas da terra,
Nem olhar a máscara recente da neve
Caída com doçura sobre os montes e as charnecas –
Não assim – e no entanto constante e imutável como tu,
Caído sobre o peito maduro da mulher que eu amo,
Sentindo sempre o seu doce movimento,
Desperto numa doce inquietação eterna,
Escutando no silêncio o seu terno respirar,
E viver assim sempre – ou lançar-me agora na morte. 

“Ao visitar o túmulo de Burns ”, de John Keats (1795-1821) trad. Bruno M. Silva

A cidade, o cemitério, e o sol-poente,
As nuvens, as árvores, as colinas parecem,
Embora belas, frias – estranhas – como num sonho
Que há muito sonhei, e a que agora retorno.
O breve, pálido verão venceu o arrepio invernal,
Em clarões que duraram uma hora;
Embora da cor da safira, as suas estrelas não cintilam:
Tudo é beleza fria; a dor nunca finda:
Pois que homens, sábios como Minos,
Podem gozar a autêntica beleza, libertos do tom mortal
Que a imaginação e o orgulho doentios
Trazem? Burns! Com toda a honra
Sempre te venerei. Grande vulto, esconde
O teu rosto; eu peco contra os teus céus nativos.

“Sobre a morte”, de John Keats (1795-1821) trad. Bruno M. Silva

I

Pode a morte ser sono, se a vida é apenas um sonho,
E os momentos de felicidade passam por nós como sombras?
Os prazeres são transitórios como visões,
E no entanto achamos que a maior dor é morrer.

II

Como é estranho que o homem deva vaguear sobre a terra,
Atravessar uma vida dolorosa, sem nunca esquecer
O seu duro caminho; nem ousar ver sozinho
A sua perdição futura, que não é senão despertar.

“Ela questionou-te”, de Vladimír Holan [1905-1980] trad. Bruno M. Silva

Ela questionou-te: O que é a poesia?
Tu querias dizer-lhe: tu também és, ah sim, tu és,
e, entre medo e assombro,
que provam o milagre,
invejo a tua beleza maturada,
e como não te posso beijar nem dormir contigo,
e como não tenho nada e quem não tem nada para dar deve cantar…

Mas não disseste nada, ficaste calado,
e ela não ouviu a canção.


[in Advancing, 1964]

“Espelho”, de Tada Chimako (1930-2003) trad. Bruno M. Silva

A minha imagem é sempre um pouco mais alta do que eu.
Ri-se sempre um pouco mais tarde.
Eu coro como um caranguejo cozido,
e recorto uma projecção de mim mesma com a tesoura das unhas.

Quando deixo que os meus lábios se aproximem do espelho,
ele distorce, e eu desapareço de vista,
como um nobre desaparece atrás do seu escudo,
ou um guarda por trás da sua tatuagem.

O meu espelho é o cemitério de sorrisos.
Viajante, quando vieres a Lakaidaimon,
diz-lhes que aqui se ergue um túmulo,
pintado de branco com maquilhagem,
com apenas o vento soprando no espelho. 

Cinco Poemas de Fujiwara no Tameie [1198-1275], trad. Bruno M. Silva

As pegadas desapareceram
do meu jardim solitário - 
a cor do musgo
está agora esquecida
sob as pétalas caídas.

*

Um cuco canta - 
mas a sua voz não anuncia
o início da manhã.
Grande parte da noite está ainda
entregue à vigília de um velho.

*

O que hei-de pensar?
Como a maré que se recolhe
na baía de Namuri,
aquele que eu amo
afasta-se de mim.

*

Na minha infância
acordava inquietado
pelo sussurrar dos juncos - 
agora fico acordado à noite
à espera do vento.

*

Sim, mas ainda assim,
embora as minhas noites de tormento
não tenham alcançado nada,
eu vou acreditar até ao fim - 
até nas suas mentiras.