Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá,
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
[Coimbra, Julho de 1843]
“Sextina publicada na edição de 1595”, de Luís de Camões [1524?-1580?]
Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
Se por acaso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de ante os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo.
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.
Que maneira tão áspera de pena!
Que nunca uma hora viu tão longa vida
Em que possa do mal mover-se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Pera que choro, enfim? Pera que falo,
Se lograr-me não pude de meus olhos?
Ó fermosos, gentis e claros olhos,
Cuja ausência me move a tanta pena
Quanta se não compreende enquanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
De vós me inda inflamasse o raio vivo,
Por bem teria tudo quanto passo.
Mas bem sei que primeiro o extremo passo
Me há-de vir a cerrar os tristes olhos,
Que amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena
Que escreverão de tão molesta vida
O menos que passei, e o mais que falo.
Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento noutro passo,
Vejo tão triste género de vida
Que, se lhe não valerem tanto os olhos,
Não posso imaginar qual seja a pena
Que traslade esta pena com que vivo.
Na alma tenho contino um fogo vivo,
Que, se não respirasse no que falo,
Estaria já feita cinza a pena;
Mas, sobre a maior dor que sofro e passo
Me temperam as lágrimas dos olhos,
Com que, fugindo, não se acaba a vida.
Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos e sem língua falo;
E juntamente passo glória e pena.
[in Obras Completas. Volume 3. Lírica, edição Círculo de Leitores]
“Ruínas”, de Roberto de Mesquita [1871-1923]
Como sois tristes, casas derrocadas,
Com vegetais daninhos por mobílias,
Esquecidas de todos, desoladas,
Sem o vivo bulício das famílias!
Enquanto os transeuntes vos encaram
Como coisas inertes e banais,
Com que amarga saudade vós cismais
Nos que em remotos dias nos amaram!
No vosso seio, esqueletos carcomidos,
Como um velho doente e olvidado,
Geme asilada a alma do Passado,
Mas raros são os que ouvem seus gemidos.
[in Almas Cativas e Poemas Dispersos, edição Companhia das Ilhas]
“Psicologia de um Vencido”, de Augusto dos Anjos [1884-1914]
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
[in Obra Completa, edição Nova Aguilar]
“Quando eu estiver morta, meu amor,”, Christina Rossetti [1830-1894], tradução de Bruno M. Silva
Quando eu estiver morta, meu amor,
Não cantes melodias tristes;
Não plantes rosas à minha cabeceira,
Nem cipreste que dê sombra:
Que seja verde a erva sobre mim,
Húmida das tempestades e do orvalho;
E se tu quiseres, lembra-te,
E se quiseres, esquece.
Eu não verei as sombras,
Não sentirei a chuva;
Não poderei escutar o rouxinol
Cantar a sua dor:
E sonhando pelo crepúsculo
Que não se levanta nem se põe,
Talvez eu me recorde,
E talvez eu me esqueça.
[ in Goblin Market and Other Poems (1862)]
“Trinta Anos”, de Bruno M. Silva
Suponhamos que nada se sucede como esperavas.
Não te casas, não tens filhos,
o mistério não se acumula
e à tua volta cresce um dissimulado
vazio
a que te habituaste com os anos,
como água
que esfria em torno do teu corpo,
do corpo dos mortos, das flores de plástico.
Logicamente envelheces
e entendes necessário o ódio
para tamanha solidão.
No suceder das noites
os copos estalam sem ruído
por corredores que nunca atravessaste,
por cobardia ou conveniência,
mas que talvez ainda esperem,
como os rios esperam os suicidas,
os teus pés atravessando-os
despidos de súbito de todo o abandono.
E lanças a prece a um deus
que talvez permanecesse
desde a infância,
mas que sem saberes lá ficou
espiando altares derrubados
pela luz de uma certa clareza
que a esta hora te falta.
Os convidados
deixam também eles de aparecer.
A festa agora pertence-te,
e já te podes olhar dentro de todo este vazio –
já podes aclarar a voz com que dirás à morte
o teu nome.
["trinta anos", poema de Bruno M. Silva publicado na antologia 110 Anos, 110 Poetas / Antologia Comemorativa dos cento e dez anos da U.Porto, org. Isabel Morujão]
“Há doenças piores que as doenças”, de Fernando Pessoa
Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma,
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com o imaginá-las
Que são mais nossas do que a nossa vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa, é nós...
Por sobre o verdor turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.
[in Cancioneiro, ed. Assírio & Alvim]
“é já longe de onde me falas”, de Bruno M. Silva
nada nos dirá
que foi daqui que vimos o mundo
ou aprendemos a dor de subir
a última manhã feita
sobre os nossos cabelos
o que disserem de nós estará certo
e será como uma luz junto aos olhos
para o lugar de onde me falas
e no entanto nada nos espera
apenas
o amor feito na escuridão das tendas
o lamber das borras do vinho
e uma garganta que se doira
ao despedir-se de ti
[in A Cabeça em Tróia, ed. Enfermaria 6, 2021]
“XLVI”, de Stephen Crane (1871-1900), tradução de Bruno M. Silva
Uma multidão de demónios encarnados saiu do meu coração
Em direcção à página.
Eram tão pequenos
Que a caneta podia esmagá-los.
Muitos lutavam na tinta.
Era estranho
Escrever nesta lama encarnada
Sobre coisas do meu coração.
[The Black Riders and Other Lines]
Bruno M. Silva. A cabeça em Tróia. Lisboa: Enfermaria 6, 2021, ensaio de Nuno Brito

É preciso cuidado com as coisas do mundo
é preciso um coração como o teu, atento
de mãos ágeis sobre a nossa solidão
Bruno M. Silva, A cabeça em Tróia.
A Cabeça em Tróia, primeiro livro de poesia de Bruno M. Silva surpreende pelo deslumbramento e velocidade das imagens que lhe traz um vívido fulgor cinematográfico e por um olhar atento, dignificante e revitalizador do humano. É, definitivamente, um livro para se ler devagar. Muito devagar, e voltar várias vezes, isso mesmo exige a sua profundidade: que o mergulho seja repetido, que o fundo não há, que o mergulho seja no escuro, e que nos traga irremediavelmente um pouco mais dentro. A profundidade é em si um tema percorrido ao longo de alguns dos poemas deste livro: “Com que cara / faremos de novo tudo / afundados já / começando agora a ser outra coisa” (p. 35), “atravessava-o muito à noite / quando a fundura dos campos / lhe aflorava sobre a pele” (p. 20), “então / volta ao princípio / o que importa / é o que disseres / submerso” (p. 16). Muitas das imagens remetem precisamente para uma profundidade líquida: “as crianças a engolir o nome” (13), através das quais a água, e as imagens marinhas se aliam a a uma ideia de intensidade, de memória e de experiência interna. Há transversalmente a “A cabeça em Tróia” um movimento de verticalidade, de cima para baixo, de penetração e de adensamento, movimento em direção ao mais profundo que é também um movimento de interiorização – de fora para dentro – o próprio ato de entrada na cidade de Tróia que a subdivisão da unidade poética sugere a partir das suas três secções “I da praia”, “II da muralha”, “III da cidade”.
As referências à Antiguidade Clássica, presentes em poemas como “o fantasma de Pátroclo”, “O porto de Naxos”, “A cabeça em Tróia” ou o “O vaso” aliam-se às referências do quotidiano contemporâneo, biográfico, como nos poemas “Três ovos”, “O último comboio para Valongo” ou “Porto Revisited” onde impera um sentido de viagem, interior, num exercício de desmistificação daquilo que se encontra excessivamente ou artificialmente afastado em detrimento daquilo que está perto ou ao alcance do eu: “Como diremos que em certas noites / nem sempre aflorou o sonho / que o ponto mais luminoso de certos dias / foi o pão sobre a mesa, a rota” (p. 35). Há nesse sentido, como no poema que dá o nome ao livro, uma “volta ao princípio” (p. 16) que parte de uma proposta de desaprender, para reaprender, através do espanto, a realidade, entranhando-a enquanto paisagem interior. A verticalidade de A cabeça em Tróia sugere também um movimento de ressurgimento, o de vir à superfície, de aflorar, de emergir tornar visível, expresso em imagens de uma força invulgar: “Tróia, meu deus, toda a noite, o fogo / de manhã, a luz nos meus olhos doentes / e um rosto que das águas emerge puro” (p. 13). A ideia de renascimento é de grande vitalidade neste livro, indissociável de um ressurgimento poético, pela escrita. Mãe / Campo / Milho / Pão manifestam-se como uma constelação de imagens que povoam este livro de um grande apelo telúrico, através do qual, a presença da figura da mãe é central para a vitalidade das imagens, imagens nas quais a presença do erotismo se entrelaça indissociavelmente à presença da morte: “Mas faltava ainda que o amor / incendiasse a paisagem // que a nossa mãe se despisse / para a eternidade // faltava que a morte / impusesse todo o seu peso // na carne lacerada do amor” (p. 29) “Fizemos tudo / trouxemos a palavra, o incêndio / para que vissem um rosto saturado de beleza // ainda assim um deus feriu-nos / ainda assim a morte” (p.13). Constitui-se assim uma rede semântica do lado da beleza, da pureza e do fogo que se intensifica e agudiza com a imagem da morte, num sentido revitalizado destas imagens, e num contacto frontal com a sua autenticidade e origem. A beleza e a pureza de A cabeça em Tróia partem de um apuramento concreto das imagens e da linguagem, de uma forte intensidade visual, de uma complexidade que se torna nítida, de um grande poder de transparência, de uma reivindicação de dignidade humana; revitalização das imagens, da linguagem, do poético e nisso mesmo revitalização do eu através da escrita enquanto ato de exigência, de um cuidado e de um atenção perante as coisas do mundo, feito de um olhar frontal, nítido e digno – transparente e vitalíssimo – atenta ao humano, à vida e ao fogo de que somos indissocialvelmente feitos.
https://www.incomunidade.pt/bruno-m-silva-a-cabeca-em-troia-lisboa-enfermaria-6-2021/: Bruno M. Silva. A cabeça em Tróia. Lisboa: Enfermaria 6, 2021, ensaio de Nuno Brito







