“Eu vi o teu rosto incendiado”, de Stephen Crane (1871-1900), tradução de Bruno M. Silva

Eu vi o teu rosto incendiado
Pelo amor que me tinhas,
Os teus braços enlouquecerem,
Os teus lábios tremerem e murmurarem e em delírio.
E – certamente –
Isto bastaria para fazer um homem feliz.
Agora já não me amas, é certo,
Mas amaste-me outrora,
E ao amares-me uma vez
Deste-me um eterno privilégio,
Pois posso sempre pensar em ti.

“Andei por tantos caminhos” de Antonio Machado (1875-1939) trad. Bruno M. Silva


Andei por tantos caminhos,
abri inúmeras veredas;
naveguei por cem mares,
e atraquei em cem margens.


Em toda a parte vi
caravanas de tristeza,
sombras negras de soberbos
e melancólicos bêbedos,


e pedantes embrulhados em robes
que olham, calam e pensam
que sabem mais, porque não bebem
o vinho miserável das tabernas.


Homens cruéis que caminham
e vão empestando a terra…

E em toda a parte vi
pessoas que dançam e brincam,
quando podem, e trabalham
a pouca terra que lhes coube.


Nunca, se chegam a um lugar,
perguntam onde chegaram.
Quando caminham, cavalgam
às costas de velhas mulas,


e não conhecem a urgência
nem em dias de festa.
Onde há vinho, bebem vinho;
onde não há, bebem água fresca.


São pessoas boas que vivem,
trabalham, passam e sonham,
e num dia como qualquer outro,
se deitam debaixo da terra.


[Soledades, gallerías y otras poemas (1899–1907)]
[Retrato de Antonio Machado por Joaquín Sorolla (1918)]

“E devo então viver contigo, Dor”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950), trad. Bruno M. Silva

E devo então viver contigo, Dor,
Toda a minha vida? - partilhar o meu fogo, a minha cama,
Partilhar – pior de tudo! - a mesma cabeça? - 
E quando me alimento, alimentar-te a ti também?
Que assim seja, então, se é esta a minha verdade:
Jantemos, camarada, e que sejamos alimentadas;
Eu não posso morrer até que tu estejas morta,
E, contigo viva, posso viver a vida até ao fim.
Ainda assim feres-me, ingrata convidada,
Espiando os meus ofícios ardentes
Com olhar gelado; roubando-me as noites de descanso;
Tornando difíceis os trabalhos outrora simples.
Morrerás comigo: mas eu irei, no melhor dos casos,
Perdoar-te um pouco, por tudo o que me fizeste.

“Esqueci-me dos lábios que beijei, e onde, e porquê”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950), trad. Bruno M. Silva

Esqueci-me dos lábios que beijei, e onde, e porquê,
Esqueci-me, e que braços pousaram sob
A minha cabeça até de manhã; mas a chuva
Está cheia de fantasmas esta noite, que batem e suspiram
Contra o vidro à espera de uma resposta,
E no meu coração agita-se uma dor muda
Pelos homens esquecidos que não voltarão
A lamentar-se à meia noite com um gemido.
Eu sou como a árvore que no inverno se sustenta,
E não sabe que pássaros a abandonaram um a um,
Mas sabe que os seus ramos estão mais silenciosos agora:
Não sei que amores vieram e se foram,
Apenas sei que o verão cantou em mim
um pouco, e que agora não canta mais.

“O amor não é tudo” de Edna St. Vincent Millay (1892-1950) trad. Bruno M. Silva

O amor não é tudo: não é comida nem bebida
Nem sono nem um telhado contra a chuva;
Não é escombro sobre o mar para quem se afunda
E flutua e afunda e flutua e afunda outra vez;
O amor não é capaz de encher de ar o pulmão ferido,
Nem de limpar o sangue, ou sarar o osso partido;
E no entanto, enquanto eu falo,
Muitos homens se acercam da morte pela falta de amor.
Pode muito bem ser que numa hora tenebrosa,
Presa à dor e implorando libertação,
Ou acometida por forças além da minha vontade,
Eu pudesse ser levada a trocar o teu amor pela paz,
Ou a trocar a memória desta noite por comida.
Poderia muito bem ser. Mas eu não creio que o fizesse.

“O tempo não traz alívio; mentiram-me todos”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950) trad. Bruno M. Silva

O tempo não traz alívio; mentiram-me todos
Os que disseram que o tempo acalmaria a minha dor!
Sinto a sua falta no som da chuva;
Quero-o quando a maré recua;
A neve antiga derrete de todas as colinas,
E as folhas passadas tornam-se fumo em cada caminho;
Mas este amor amargo permanece sempre
Amontoado no meu coração, e os meus sentimentos sustentam-no.
Há cem lugares que temo visitar,
Tão carregados da sua memória.
E quando entro aliviada num lugar sossegado
Que nunca conheceu o seu pé ou iluminou o seu rosto
Eu digo, "Não existe memória dele aqui!"
E ali permaneço, fulminada, recordando-me dele.