Eu vi o teu rosto incendiado
Pelo amor que me tinhas,
Os teus braços enlouquecerem,
Os teus lábios tremerem e murmurarem e em delírio.
E – certamente –
Isto bastaria para fazer um homem feliz.
Agora já não me amas, é certo,
Mas amaste-me outrora,
E ao amares-me uma vez
Deste-me um eterno privilégio,
Pois posso sempre pensar em ti.
“Andei por tantos caminhos” de Antonio Machado (1875-1939) trad. Bruno M. Silva
Andei por tantos caminhos,
abri inúmeras veredas;
naveguei por cem mares,
e atraquei em cem margens.
Em toda a parte vi
caravanas de tristeza,
sombras negras de soberbos
e melancólicos bêbedos,
e pedantes embrulhados em robes
que olham, calam e pensam
que sabem mais, porque não bebem
o vinho miserável das tabernas.
Homens cruéis que caminham
e vão empestando a terra…
E em toda a parte vi
pessoas que dançam e brincam,
quando podem, e trabalham
a pouca terra que lhes coube.
Nunca, se chegam a um lugar,
perguntam onde chegaram.
Quando caminham, cavalgam
às costas de velhas mulas,
e não conhecem a urgência
nem em dias de festa.
Onde há vinho, bebem vinho;
onde não há, bebem água fresca.
São pessoas boas que vivem,
trabalham, passam e sonham,
e num dia como qualquer outro,
se deitam debaixo da terra.
[Soledades, gallerías y otras poemas (1899–1907)]
[Retrato de Antonio Machado por Joaquín Sorolla (1918)]
“Casal” de Forugh Farrokhzad (1934-1967) trad. Bruno M. Silva
A noite chega e depois da noite, escuridão depois da escuridão olhos mãos e respiração, respiração, respiração e o som da água que cai ping ping ping da torneira depois dois pontos vermelhos de dois cigarros acesos o bater do relógio e dois corações e duas solidões
“Mantendo as coisas inteiras”, de Mark Strand (1934-2014) trad. Bruno M. Silva
Num campo eu sou a ausência de campo. É sempre este o caso. Onde quer que vá sou aquilo que falta. Quando caminho aparto o ar e o ar move-se sempre de forma a preencher o espaço onde o meu corpo esteve. Todos temos motivos para nos movermos. Eu avanço para manter as coisas inteiras
“Medo” de Charles Simic (1938-) trad. Bruno M. Silva
O medo é passado de homem para homem Inconscientemente, Como uma folha passa o seu estremecimento A outra. De repente toda a árvore treme E não há sinal do vento.
“E devo então viver contigo, Dor”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950), trad. Bruno M. Silva
E devo então viver contigo, Dor, Toda a minha vida? - partilhar o meu fogo, a minha cama, Partilhar – pior de tudo! - a mesma cabeça? - E quando me alimento, alimentar-te a ti também? Que assim seja, então, se é esta a minha verdade: Jantemos, camarada, e que sejamos alimentadas; Eu não posso morrer até que tu estejas morta, E, contigo viva, posso viver a vida até ao fim. Ainda assim feres-me, ingrata convidada, Espiando os meus ofícios ardentes Com olhar gelado; roubando-me as noites de descanso; Tornando difíceis os trabalhos outrora simples. Morrerás comigo: mas eu irei, no melhor dos casos, Perdoar-te um pouco, por tudo o que me fizeste.
“Esqueci-me dos lábios que beijei, e onde, e porquê”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950), trad. Bruno M. Silva
Esqueci-me dos lábios que beijei, e onde, e porquê, Esqueci-me, e que braços pousaram sob A minha cabeça até de manhã; mas a chuva Está cheia de fantasmas esta noite, que batem e suspiram Contra o vidro à espera de uma resposta, E no meu coração agita-se uma dor muda Pelos homens esquecidos que não voltarão A lamentar-se à meia noite com um gemido. Eu sou como a árvore que no inverno se sustenta, E não sabe que pássaros a abandonaram um a um, Mas sabe que os seus ramos estão mais silenciosos agora: Não sei que amores vieram e se foram, Apenas sei que o verão cantou em mim um pouco, e que agora não canta mais.
“O amor não é tudo” de Edna St. Vincent Millay (1892-1950) trad. Bruno M. Silva
O amor não é tudo: não é comida nem bebida Nem sono nem um telhado contra a chuva; Não é escombro sobre o mar para quem se afunda E flutua e afunda e flutua e afunda outra vez; O amor não é capaz de encher de ar o pulmão ferido, Nem de limpar o sangue, ou sarar o osso partido; E no entanto, enquanto eu falo, Muitos homens se acercam da morte pela falta de amor. Pode muito bem ser que numa hora tenebrosa, Presa à dor e implorando libertação, Ou acometida por forças além da minha vontade, Eu pudesse ser levada a trocar o teu amor pela paz, Ou a trocar a memória desta noite por comida. Poderia muito bem ser. Mas eu não creio que o fizesse.
“O tempo não traz alívio; mentiram-me todos”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950) trad. Bruno M. Silva
O tempo não traz alívio; mentiram-me todos Os que disseram que o tempo acalmaria a minha dor! Sinto a sua falta no som da chuva; Quero-o quando a maré recua; A neve antiga derrete de todas as colinas, E as folhas passadas tornam-se fumo em cada caminho; Mas este amor amargo permanece sempre Amontoado no meu coração, e os meus sentimentos sustentam-no. Há cem lugares que temo visitar, Tão carregados da sua memória. E quando entro aliviada num lugar sossegado Que nunca conheceu o seu pé ou iluminou o seu rosto Eu digo, "Não existe memória dele aqui!" E ali permaneço, fulminada, recordando-me dele.





