“a morte de thelma sayles”, de Lucille Clifton (1936-2010), tradução de Bruno M. Silva

não deixo vestígios para que os meus amores vivos
não me possam seguir. junto ao rio
a maioria volta para trás, as suas almas tremem,
mas a minha menina fica sozinha na margem
e olha. arranco o meu coração do bolso
e atiro-o. sorrio ao vê-la apanhar tudo
o que alguma vez irá apanhar e voltar para casa
e para os seus filhos. a maternidade
tornou-o forte, sussurro ao seu ouvido
por entre as folhas. 

“confissão”, de Lucille Clifton (1936-2010), tradução de Bruno M. Silva

 pai 
 não sou semelhante à fé necessária.
 eu duvido.
 tenho as certezas de uma mulher;
 corpos são-me arrancados,
 empurrados para dentro de mim.
 osso e carne é o que conheço.
  
 pai
 os anjos dizem que não têm asas.
 acordei uma manhã
 sentindo como os poderia ver.
 podia distinguir as suas sombras
 na sombra. eu não sou
 semelhante à fé necessária.
  
 pai 
 vejo a tua mãe hirta
 sem ombros sem sapatos a teu lado.
 ouço-a sussurrar-te verdades que eu não posso conhecer.
 pai eu duvido.
  
 pai 
 quais são as verdadeiras certezas?
 a tua mãe fala de amor.
  
 os anjos dizem que não têm asas.
 não sou semelhante à fé necessária.
 procuro fugir de tão surpreendente presença;
 os anjos correm diante de mim
 como uma tocha. 

Dois poemas de Fujiwara no Ietaka (1158-1237), tradução de Bruno M. Silva a partir da versão inglesa de Steven D. Carter

Ainda agora o ano
começou a florir.
Como pode ser, então,
que destas laranjas se desprenda
um aroma tão antigo?
  
*
  
Todas as coisas encontram o seu fim –
e então o dia procura amanhecer
com os sinos da manhã.
Mas a longa noite persiste
com a lua ainda no céu. 

“Cisnes Selvagens”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950), trad. Bruno M. Silva

Olhei o meu coração enquanto os cisnes selvagens sobrevoavam.
E o que vi que ainda não vira antes?
Apenas uma questão a menos ou a mais;
Nada que coincidisse com o voo de aves selvagens.
Coração fatigado, vivendo e morrendo sempre,
Casa sem ar, eu abandono-te e tranco a tua porta.
Cisnes selvagens, atravessem a cidade, atravessem
A cidade de novo, arrastando as pernas e bramindo. 

“Lamento”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950), trad. Bruno M. Silva

Ouçam, filhos: 
O vosso pai está morto.
Dos seus velhos casacos
Farei casaquinhos para vocês;
Farei das suas velhas calças
Calças mais pequenas.
Nos seus bolsos estarão
Coisas que costumava guardar,
Chaves e moedas
Cobertas de tabaco;
O Dan ficará com as moedas
Para guardar no banco;
A Anne ficará com as chaves
Para fazer um belo som com elas.
A vida deve continuar,
E os mortos serem esquecidos;
A vida deve continuar,
Embora bons homens morram;
Anne, come o teu pequeno-almoço;
Dan, toma o remédio;
A vida deve continuar;
Às vezes esqueço porquê. 

“Improvisado”, de Meng Chiao (751-814), trad. Bruno M. Silva

Afasta-te de gumes afiados,
Não te aproximes de uma mulher desejável.
Um gume fere-te a mão,
A beleza de uma mulher fere-te a vida.
O perigo do caminho não está na distância,
Dez milhas são o suficiente para quebrares uma roda.
O perigo do amor não está em amares em abundância,
Uma única noite pode deixar na alma a sua ferida. 

“Assistindo a uma despedida”, de Wang Wei (699-761), trad. Bruno M. Silva

Verde verde o caminho dos salgueiros
O caminho por onde se separam
Um filho amado para distantes províncias
E velhos pais deixados em casa
  
Ele deve partir ou eles não sobreviverão
Mas a partida reacende a dor
Uma gentil investida ao irmão
Uma breve palavra aos vizinhos
Uma última bebida aos portões
E por fim despede-se dos amigos
  
Secas as lágrimas, deve juntar-se aos companheiros
Engolindo o sofrimento, arranca na carruagem
E por fim desaparece ao longe
Levantando por vezes o pó da estrada
  
Eu também, há muito, disse adeus à minha família
E quando vejo isto, o meu lenço molha-se de lágrimas. 


(a partir da versão inglesa de G. W. Robinson e Arthur Cooper, in Three Tang Dinasty Poets, Penguin Classics)