não deixo vestígios para que os meus amores vivos não me possam seguir. junto ao rio a maioria volta para trás, as suas almas tremem, mas a minha menina fica sozinha na margem e olha. arranco o meu coração do bolso e atiro-o. sorrio ao vê-la apanhar tudo o que alguma vez irá apanhar e voltar para casa e para os seus filhos. a maternidade tornou-o forte, sussurro ao seu ouvido por entre as folhas.
“confissão”, de Lucille Clifton (1936-2010), tradução de Bruno M. Silva
pai não sou semelhante à fé necessária. eu duvido. tenho as certezas de uma mulher; corpos são-me arrancados, empurrados para dentro de mim. osso e carne é o que conheço. pai os anjos dizem que não têm asas. acordei uma manhã sentindo como os poderia ver. podia distinguir as suas sombras na sombra. eu não sou semelhante à fé necessária. pai vejo a tua mãe hirta sem ombros sem sapatos a teu lado. ouço-a sussurrar-te verdades que eu não posso conhecer. pai eu duvido. pai quais são as verdadeiras certezas? a tua mãe fala de amor. os anjos dizem que não têm asas. não sou semelhante à fé necessária. procuro fugir de tão surpreendente presença; os anjos correm diante de mim como uma tocha.
Dois poemas de Fujiwara no Ietaka (1158-1237), tradução de Bruno M. Silva a partir da versão inglesa de Steven D. Carter
Ainda agora o ano começou a florir. Como pode ser, então, que destas laranjas se desprenda um aroma tão antigo? * Todas as coisas encontram o seu fim – e então o dia procura amanhecer com os sinos da manhã. Mas a longa noite persiste com a lua ainda no céu.
Poema de Nun Abutsu (1222-1283), tradução de Bruno M. Silva a partir da versão inglesa de Steven D. Carter
Em uma outra vida quem me prendeu a este destino? – à angústia de viver sem ninguém para desatar o meu vestido.
“Cisnes Selvagens”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950), trad. Bruno M. Silva
Olhei o meu coração enquanto os cisnes selvagens sobrevoavam. E o que vi que ainda não vira antes? Apenas uma questão a menos ou a mais; Nada que coincidisse com o voo de aves selvagens. Coração fatigado, vivendo e morrendo sempre, Casa sem ar, eu abandono-te e tranco a tua porta. Cisnes selvagens, atravessem a cidade, atravessem A cidade de novo, arrastando as pernas e bramindo.
“Ebb”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950), trad. Bruno M. Silva
Eu sei como é o meu coração Desde que o teu amor morreu: É como uma margem oca Guardando uma pequena poça Lá deixada pela maré, Uma pequena poça morna Secando-se desde as margens.
“Lamento”, de Edna St. Vincent Millay (1892-1950), trad. Bruno M. Silva
Ouçam, filhos: O vosso pai está morto. Dos seus velhos casacos Farei casaquinhos para vocês; Farei das suas velhas calças Calças mais pequenas. Nos seus bolsos estarão Coisas que costumava guardar, Chaves e moedas Cobertas de tabaco; O Dan ficará com as moedas Para guardar no banco; A Anne ficará com as chaves Para fazer um belo som com elas. A vida deve continuar, E os mortos serem esquecidos; A vida deve continuar, Embora bons homens morram; Anne, come o teu pequeno-almoço; Dan, toma o remédio; A vida deve continuar; Às vezes esqueço porquê.
“Improvisado”, de Meng Chiao (751-814), trad. Bruno M. Silva
Afasta-te de gumes afiados, Não te aproximes de uma mulher desejável. Um gume fere-te a mão, A beleza de uma mulher fere-te a vida. O perigo do caminho não está na distância, Dez milhas são o suficiente para quebrares uma roda. O perigo do amor não está em amares em abundância, Uma única noite pode deixar na alma a sua ferida.
“Assistindo a uma despedida”, de Wang Wei (699-761), trad. Bruno M. Silva
Verde verde o caminho dos salgueiros O caminho por onde se separam Um filho amado para distantes províncias E velhos pais deixados em casa Ele deve partir ou eles não sobreviverão Mas a partida reacende a dor Uma gentil investida ao irmão Uma breve palavra aos vizinhos Uma última bebida aos portões E por fim despede-se dos amigos Secas as lágrimas, deve juntar-se aos companheiros Engolindo o sofrimento, arranca na carruagem E por fim desaparece ao longe Levantando por vezes o pó da estrada Eu também, há muito, disse adeus à minha família E quando vejo isto, o meu lenço molha-se de lágrimas. (a partir da versão inglesa de G. W. Robinson e Arthur Cooper, in Three Tang Dinasty Poets, Penguin Classics)
“Memória”, de Helen Hoyt (1887-1972), trad. Bruno M. Silva
Lembro-me da nossa dor, do nosso riso; Sei que certamente nos beijámos e chorámos e comemos juntos; Lembro-me dos nossos lugares e jogos, e dos nossos planos – Da pequena casa e de como tudo resultou em nada – Lembro-me bem: Mas não me lembro do nosso amor, Não me lembro do nosso amor.







