“Quando o homem entra na mulher”, de Anne Sexton (1928-1974), trad. Bruno M. Silva

Quando o homem
entra na mulher,
como a rebentação das águas sobre a costa,
uma e outra vez,
e a mulher abre a boca de prazer
e os seus dentes brilham
como o alfabeto,
Logos aparece ordenhando uma estrela,
e o homem 
dentro da mulher
aperta um nó
para que nunca mais
se separem
e a mulher 
sobe a uma flor
e engole o caule
e Logos aparece
e liberta os seus rios.

Este homem,
esta mulher
com a sua dupla fome,
tentaram aproximar-se
da cortina de Deus
e por momentos conseguiram,
embora Deus
na Sua perversidade 
desate o nó.


[in The Awful Rowing Toward God]

“Coisas”, de Lisel Mueller (1924-2020), trad. Bruno M. Silva

O que aconteceu foi que nos tornámos solitários
vivendo entre as coisas,
então demos um rosto aos relógios,
costas às cadeiras,
à mesa quatro pernas robustas
para que nunca se fatigasse.

Calçámos os sapatos com línguas
macias como as nossas
e pendurámos badalos dentro dos sinos
para que pudéssemos ouvir
a sua linguagem emotiva,

e como amávamos perfis graciosos
a jarra recebeu um lábio,
a garrafa um longo, ténue pescoço.

Mesmo o que estava para além de nós
acabámos por forjar à nossa imagem;
demos um coração ao país,
um olho à tempestade,
uma boca à caverna
para que pudéssemos passar em segurança.

“New Heaven and Earth”, de D. H. Lawrence (1885-1930) trad. Bruno M. Silva

II

Estava tão farto do mundo,
tão exausto de tudo,
porque tudo estava manchado de mim mesmo,
céus, árvores, flores, pássaros, água,
pessoas, casas, ruas, veículos, máquinas,
nações, exércitos, guerras, tratados de paz,
trabalho, diversão, governo, anarquia,
estava tudo manchado de mim mesmo, eu sempre soube
porque tudo era eu mesmo.

Quando colhia flores, sabia que arrancava a minha própria floração.
Quando entrava num comboio, sabia que viajava por minha própria criação.
Quando ouvia os canhões de guerra, ouvia a minha própria destruição.
Quando via os mortos despedaçados, sabia que era o meu próprio corpo torcido.
Tudo isto era eu, eu havia feito tudo na minha própria carne.

“Fadiga”, de D. H. Lawrence (1885-1930), Trad. Bruno M. Silva

A minha alma teve um dia longo e difícil,
está fatigada,
e procura agora o esquecimento de si mesma.

Oh, e no mundo
não há lugar onde a alma encontre o seu olvido,
a paz que vem depois da escuridão,
pois o homem matou o silêncio da terra
e destruiu os lugares brandos do esquecimento
onde os anjos costumavam pousar.

[in Last Poems]

“Eu olho para o mundo”, de Langston Hughes (1902-1967), trad. Bruno M. Silva

Eu olho o mundo
Pelos olhos que despertam num rosto negro – 
E é isto que eu vejo:
Este lugar estreito e vedado
Que me destinaram.

Olho depois os muros absurdos
Pelos olhos negros num rosto negro – 
E é isto que eu sei:
Que estes muros que a opressão constrói
Terão que ir!

Olho para o meu próprio corpo
Com olhos já não cegos – 
E vejo que as minhas mãos podem construir
O mundo que existe na minha cabeça.
Apressemo-nos então a encontrar, camaradas,
O caminho por achar.

“Onde me meto este Janeiro, ó cidade?”, de Ossip Mandelstam, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra

Onde me meto este Janeiro, ó cidade?
Louca-desvairada a cidade aberta agarra...
Será que me alucinam as portas cerradas? - 
São de soltar uivos tantas trancas, trincos, barras.

Os becos-meias que ladram e mais as caves
Das ruas tortas esconsas onde à margem
Precipitadamente os marginais se escondem,
Donde correndo precipitadamente saem...

E para o frenesim escorrego, para o escuro
Salpicado de verrugas, até ao gelo
Da bomba de água, tropeço no ar morto
E as gralhas fogem febris sob o regelo.

Uááá! Atrás delas eu grito para as fossas
Sei lá de que gelada caixa de madeira:
- Preciso de um leitor! médico! conselheiro!
Duma conversa nas escadas espinhosas!


[1 de Fevereiro de 1937]

(in Guarda Minha Fala Para Sempre, ed. Assírio & Alvim)

“Eu torno-me cada vez mais dócil, de Anna Akhmátova, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra

Eu torno-me cada vez mais dócil,
e tu sempre misterioso e novo,
mas teu amor, meu severo amigo,
é uma prova de ferro e fogo.

Proíbes-me de cantar, sorrir,
e há muito de rezar,
desde que não me aparte de ti,
todo o resto me é igual!

Assim, alheia à terra e ao céu,
já não canto, apenas vivo.
Minha alma livre arrancaste
do inferno e do paraíso.

[1917]

(in Só o Sangue Cheira a Sangue, ed. Assírio & Alvim)

“Dores de Parto”, de Yosano Akiko (1878-1942), tradução de Bruno M. Silva a partir da versão inglesa de Kenneth Rexroth e Ikuko Atsumi

Hoje estou doente,
doente no meu corpo,
de olhos abertos, emudecida,
estou deitada na cama de parto.

Porque é que eu,
tão acostumada à proximidade da morte,
da dor, do sangue, do grito,
agora tremo incontrolavelmente de temor?

Um jovem e agradável médico tentou reconfortar-me,
e falou sobre a alegria de dar à luz.
Uma vez que eu sei mais do que ele sobre esta matéria,
de que me serve o seu tagarelar?

Conhecimento não é realidade.
A experiência pertence ao passado
Que se calem então os que carecem de urgência
Que os observadores se contentem com observar.

Eu estou sozinha,
perfeitamente, inteiramente, absolutamente entregue a mim mesma,
mordendo os meus lábios, segurando o meu corpo rígido,
servindo um fado inexorável.

Existe apenas uma verdade.
Darei à luz uma criança,
a verdade movendo-se do meu interior para fora.
Nem bom nem mau; real, sem que haja nisto falsidade.

Com as primeiras dores de parto,
subitamente o sol empalidece.
O mundo indiferente fica estranhamente calmo.
Eu estou sozinha.
É sozinha que eu sou.

“entrando no sul”, de Lucille Clifton (1936-2010), trad. Bruno M. Silva

vesti o casaco de minha mãe.
é quente e familiar
como velho pêlo
e posso ouvir vozes sussurrantes
através dele.    demasiados
animais morreram
para que fosse feito.   as mangas
desenrolam-se em direcção às mãos
como cordas.  eu vou usá-lo
porque ela o amou
mas o sangue de que foi criado acumula-se
sobre os meus ombros
pesado escuro e vivo 

“Campo”, de Antonio Machado (1875-1939), trad. Bruno M. Silva

A tarde morre
como uma humilde lareira que se apaga.
  
Ali, sobre os montes,
restam apenas algumas brasas.
  
E aquela árvore sobre o caminho branco, quebrada,
faz-te chorar de piedade.
  
Dois ramos no tronco desfeito, e uma
folha, gasta e negra, em cada ramo!
  
Choras?... Entre os álamos de ouro,
distante, a sombra do amor espera por ti.