Na poesia não há final feliz. Os poetas acabam por viver a sua loucura. E são retalhados como gado (aconteceu com Darío). Ou então são apedrejados e acabam por se atirar ao mar ou com cristais de cianeto na boca. Ou mortos pelo álcool, drogas, miséria. Ou pior: poetas oficiais, amargos habitantes de um túmulo chamado Obras Completas.
“O inefável”, de Delmira Agustini (1886-1914) trad. Bruno M. Silva
Eu morro estranhamente… Não me mata a Vida, Não me mata a Morte, não me mata o Amor; Morro de um pensamento mudo como uma ferida… Não tereis sentido nunca a estranha dor De um pensamento imenso que se prende à vida, Devorando alma e carne, e que não chega a dar flor? Nunca levastes dentro uma estrela adormecida Que vos queimava inteiros sem nunca luzir?… Cume dos Martírios!… Levar eternamente, Desolada e estéril, a trágica semente Cravada nas entranhas como um dente feroz!… Mas um dia arrancá-la em flor, Milagrosa, inviolável!… Ah, maior não seria Ter entre as mãos a cabeça de Deus! [de Cantos de la mañana 1910]
“O intruso”, de Delmira Agustini (1886-1914) trad. Bruno M. Silva
Amor, a noite estava trágica e arfante Quando a tua chave de ouro cantou na minha fechadura; Depois, na porta aberta sobre a sombra gelada, A tua figura foi uma mancha de luz e brancura. Aqui tudo foi iluminado pelos teus olhos de diamante; Os teus lábios de frescura beberam do meu cálice, E a tua cabeça perfumada descansou na minha almofada; O teu despudor encantou-me e adorei a tua loucura. E hoje rio-me se te ris, e canto se tu cantas; E se tu dormes eu durmo como um cão a teus pés! E ainda hoje carrego na minha sombra o teu odor primaveril; E tremo se a tua mão toca a fechadura, E bendigo a noite arfante e obscura Que fez crescer na minha vida a tua boca de frescura! de El libro blanco (Frágil) 1907
“Explosão”, de Delmira Agustini (1886-1914) trad. Bruno M. Silva
Se a vida é amor, bendita seja! Quero mais vida para amar! Hoje sinto Que mil anos de pensamento não valem Um belo minuto de sentimento. O meu coração morria triste e lento… Hoje abre-se em luz como uma flor tremenda; A vida brota como um mar violento Onde a mão do amor me golpeia! Hoje partiu durante a noite, triste, fria, De asas quebradas a minha melancolia; Como uma antiga mancha de dor Na sombra distante se dissolveu… Toda a minha vida canta, beija, ri! Toda a minha vida é uma boca em flor! [de El libro blanco (Frágil) 1907]
“Amor”, de Delmira Agustini (1886-1914) trad. Bruno M. Silva
Sonhei-o impetuoso, formidável, ardente; Falando a imprecisa linguagem da torrente; Um mar transbordando de loucura e fogo, Atravessando a vida como uma eterna fonte. Mais tarde, sonhei-o triste, como um grande sol-poente Que dobrasse contra a noite a sua cabeça flamejante; Depois ele riu-se, e na sua boca terna como uma oração, A alma da fonte anunciou os seus cristais. Hoje sonho que é vibrante, e suave, e alegre, e triste, Que se veste de toda a escuridão e de toda a íris; Que, frágil como um ídolo e eterno como Deus, Levanta sobre toda a vida a sua majestade: E o seu beijo ardente cai a perfumar o solo Numa flor em chamas arrancada por dois...
“Versos escritos para Fanny Brawne”, de John Keats (1795-1821) trad. Bruno M. Silva
Esta mão agora viva, quente, capaz De se estender, poderia, se estivesse fria E no silêncio selado do túmulo, Assombrar-te os dias o arrepiar-te os sonhos De tal forma que desejarias que o teu coração estéril Fizesse correr de novo nas minhas veias a vida Até que o teu espírito se acalmasse. Olha para ela, tão perto - Eu estendo-a para ti.
“Estrela Brilhante”, de John Keats (1795-1821) trad. Bruno M. Silva
Estrela brilhante, fosse eu constante como tu, Não no teu brilho solitário sustido na noite, Observando, de pálpebras eternamente abertas, Como um vigilante Eremita da natureza, As águas agitando-se em seu sagrado esforço, Purificando as margens humanas da terra, Nem olhar a máscara recente da neve Caída com doçura sobre os montes e as charnecas – Não assim – e no entanto constante e imutável como tu, Caído sobre o peito maduro da mulher que eu amo, Sentindo sempre o seu doce movimento, Desperto numa doce inquietação eterna, Escutando no silêncio o seu terno respirar, E viver assim sempre – ou lançar-me agora na morte.
“Ao visitar o túmulo de Burns ”, de John Keats (1795-1821) trad. Bruno M. Silva
A cidade, o cemitério, e o sol-poente, As nuvens, as árvores, as colinas parecem, Embora belas, frias – estranhas – como num sonho Que há muito sonhei, e a que agora retorno. O breve, pálido verão venceu o arrepio invernal, Em clarões que duraram uma hora; Embora da cor da safira, as suas estrelas não cintilam: Tudo é beleza fria; a dor nunca finda: Pois que homens, sábios como Minos, Podem gozar a autêntica beleza, libertos do tom mortal Que a imaginação e o orgulho doentios Trazem? Burns! Com toda a honra Sempre te venerei. Grande vulto, esconde O teu rosto; eu peco contra os teus céus nativos.
“Sobre a morte”, de John Keats (1795-1821) trad. Bruno M. Silva
I Pode a morte ser sono, se a vida é apenas um sonho, E os momentos de felicidade passam por nós como sombras? Os prazeres são transitórios como visões, E no entanto achamos que a maior dor é morrer. II Como é estranho que o homem deva vaguear sobre a terra, Atravessar uma vida dolorosa, sem nunca esquecer O seu duro caminho; nem ousar ver sozinho A sua perdição futura, que não é senão despertar.
“Ela questionou-te”, de Vladimír Holan [1905-1980] trad. Bruno M. Silva
Ela questionou-te: O que é a poesia? Tu querias dizer-lhe: tu também és, ah sim, tu és, e, entre medo e assombro, que provam o milagre, invejo a tua beleza maturada, e como não te posso beijar nem dormir contigo, e como não tenho nada e quem não tem nada para dar deve cantar… Mas não disseste nada, ficaste calado, e ela não ouviu a canção. [in Advancing, 1964]




