Entrámos no elevador. Os dois, sozinhos. Olhamos um para o outro e mais nada. Duas vidas, um momento pleno, sagrado. No quinto andar ela saiu e eu continuei a subir sabendo que não a voltaria a ver, que tudo isto fora um encontro derradeiro, que se eu a seguisse agora seria como um homem morto cercando-a, e que se ela se voltasse para mim seria já de um outro mundo.
“Neve”, de Vladimír Holan [1905-1980] trad. Bruno M. Silva
Começou a nevar à meia-noite. E claro que a cozinha é o melhor lugar para te sentares, mesmo a cozinha dos que não dormem. É quente, cozinhas qualquer coisa, bebes vinho e olhas pela janela a tua amiga eternidade. Que importa que o nascimento e a morte sejam meros pontos quando a vida em si não é uma linha recta? Por que te atormentas olhando o calendário e te questionas sobre o que está em jogo. Para quê confessar que não tens dinheiro para sapatos de marca? E para quê gabares-te que sofres mais do que os outros. Se não houvesse aqui silêncio a neve tê-lo-ia sonhado. Estás sozinho. Poupa os teus gestos. Não tens nada para mostrar.
“Mãe”, de Vladimir Holan [1905-1980] trad. Bruno M. Silva
Alguma vez viste a tua velha mãe fazer a tua cama, a forma como ela puxa, alisa, afaga, suaviza o lençol para que não sintas nunca uma única dobra? A sua respiração, o movimento das mãos e das palmas são tão ternos que no passado essas mãos ainda apagam os fogos em Persépolis e acalmam neste momento alguma tempestade futura na costa chinesa ou em mares desconhecidos.
Três poemas de Saigyō (1118-1190) trad. Bruno M. Silva a partir da versão inglesa de Meredith Mckinney
Vazio como o céu o meu coração é névoa primaveril dissipando-se desejoso por deixar este mundo para trás * Como poderia eu atravessar a vida sem saber aquilo que ela é - um caminho que inesperadamente leva à morte? * Efémeros aqueles anos em que eu pensava que viveria sempre anos perdidos num sonho passageiro [in Gazing at the Moon, Buddhist Poems of Solitude]
“Dia dos Mortos”, de D. H. Lawrence (1885-1930) trad. Bruno M. Silva
Tem cuidado, então, e sê brando com a morte. É difícil morrer, difícil atravessar essa porta, mesmo quando se abre. E os pobres mortos, mesmo depois de abandonarem a muralhada cidade de prata do seu corpo para onde irão, oh para onde irão eles? Eles demoram-se entre as sombras da terra. A grande sombra cónica da terra está cheia de almas que não puderam atravessar o mar da mudança. Sê brando, oh sê brando com os teus mortos e cobre-os de um pouco de coragem, ajuda-os a construir o seu pequeno barco para a morte. Pois a alma tem uma longa, interminável viagem depois da morte até à bela mansão do puro esquecimento. Cada um precisa de um pequeno barco, um pequeno barco e comida suficiente para a grande viagem. Oh, do fundo do teu coração cuida dos teus mortos mais uma vez, prepara-os como marinheiros que partem, com amor. [in Last Poems]
“Para _____”, de W. S. Merwin (1927-2019) trad. Bruno M. Silva
Não há qualquer motivo para eu continuar a contar o tempo que passou desde que estiveste aqui viva certa manhã é como se estivesse a soltar o fio de um papagaio dia após dia sobre o meu dedo quando na verdade não existe fio nenhum
“Grinding the Lens”, de Linda Gregg (1942-2019) trad. Bruno M. Silva
Estou a tentar ficar melhor. Não quero ir de viagem. Pintei a sala de estar de branco e tirei a maior parte das minhas coisas. A sala nunca esteve tão vazia. Ouço de repente o som de um trovão e a chuva que subitamente cai lá fora. Deixo a máquina de escrever e corro ao exterior de vestido de noite e tiro o lençol de algodão da corda. É verão e eu estou a meio da minha vida. Sozinha e feliz.
“Conquista”, de Yannis Ritsos (1909-1990) trad. Bruno M. Silva a partir da versão inglesa de Rae Dalven
Aquilo que procurámos como justificação das nossas vidas fora alcançado. Nenhum vestígio de desejo, lembrança ou terror permanecia no centro das nossas células. Éramos dois corpos vazios atirados para a margem da noite. Mais tarde, enquanto calçavas as meias - olhei com atenção para a cama, era um animal muito antigo transformado em mármore na posição sexual caminhando com as suas quatro patas mortas para o vazio.
“O Amor Chega Silenciosamente”, de Robert Creeley (1926-2005) trad. Bruno M. Silva
O amor chega silenciosamente, enfim, e tomba sobre mim, dentro de mim de uma forma antiga. O que sabia eu achando-me capaz de seguir sozinho até ao fim.
“Confissões”, de Charles Bukowski (1920-1994) trad. Bruno M. Silva
estou à espera da morte como um gato que vai saltar para a cama tenho pena da minha mulher vai encontrar este corpo branco e rijo vai abaná-lo uma vez, talvez outra: “Hank!” o Hank não vai responder. não é a minha morte que me preocupa, é a minha mulher deixada aqui com esta pilha de nada. quero que ela saiba no entanto que todas as noites a dormir ao lado dela até as discussões sem sentido foram coisas formidáveis e as palavras difíceis que sempre temi dizer-lhe podem agora ser ditas: Eu amo-te [in On Love]







